PÓS-PENDRAGON
“Eu imagino o que as pessoas estão comentando”, foi a única declaração de Déborah Felipe ao se recusar a falar sobre o caso PenDragon. Nadja Moreno também informou que não tinha interesse em se posicionar. Já Priscila Gonçalves e Ricardo não responderam a nenhuma das tentativas de contato feitas.
Atualmente, a segunda gestão da editora responde a diversos processos que envolvem rescisão contratual com restituição de valores pagos, indenização por danos morais e materiais, obrigações de não fazer e pedidos de tutela de urgência ou antecipada.
Um dos autores que obteve uma decisão favorável na Justiça foi Thiago Nazarko, em uma ação de rescisão contratual com pedido de indenização por danos morais e materiais. Na 1ª instância, a Justiça decidiu a seu favor, determinando que a Editora PenDragon pague R$6.822,79 por danos materiais e R$5.000,00 por danos morais. No entanto, o processo segue agora em 2º grau, no Tribunal de Justiça, pois Ricardo Gonçalves, representante da PenDragon, recorreu da decisão, apresentando apelação para tentar modificá-la.
O advogado Alex Fernando Machado, que atuou na defesa de alguns autores da PenDragon na Justiça, explica que ter o nome e as obras vinculados a uma editora que encerrou suas atividades prejudica a imagem de qualquer escritor, sobretudo daqueles que estão em início de carreira e ainda não conquistaram visibilidade junto ao grande público. Além disso, segundo ele, há também danos financeiros evidentes, já que o autor realiza um investimento inicial para viabilizar a publicação.
Machado orienta que novos escritores avaliem com atenção a solidez da editora com a qual pretendem trabalhar, observando há quanto tempo está no mercado, o feedback de outros autores e as qualificações apresentadas. Na análise do contrato, ressalta que é fundamental verificar o seu real objetivo, lembrando que, em casos como esse, o foco principal deve ser a prestação de serviços ao autor. Ele reforça ainda a necessidade de questionar qualquer cláusula relacionada à apropriação de direitos autorais, destacando a importância de cautela ao disponibilizar tais direitos em qualquer circunstância.
Diante do impasse, a maioria dos autores optou por buscar acordos extrajudiciais, evitando recorrer à Justiça. Temendo prejudicar a própria reputação no mercado literário, muitos preferiram não se manifestar publicamente, desligando-se da editora de forma discreta.
Ainda assim, após tudo o que vivenciaram, esses autores compartilharam conselhos para quem deseja ingressar no mercado editorial. Marília G. Barbosa recomenda que, se os prazos começarem a atrasar excessivamente, é essencial cobrar de forma firme, estabelecendo uma data-limite e, caso ela não seja cumprida, solicitar o reembolso. Ela também aconselha a manter mais de um contato da editora, para evitar a falta de comunicação caso alguém desapareça. Flávia Malek destaca a importância de ser incisiva ao perceber os primeiros sinais de problemas. Segundo ela, muitos autores têm medo de perder a chance de publicar e acabam sendo passivos demais, o que só favorece atrasos e transtornos. Seu conselho final é claro: “Pesquisem, entendam o processo e não tenham medo de cobrar. Não é exagero — se não houver cobrança, não há retorno, nem saúde mental para lidar com tudo isso.”
Vitória Amancio sugere que os escritores pesquisem editoras no Reclame Aqui e as acompanhem como leitores antes de fechar contrato. Ela ressalta que o processo de encontrar uma boa editora é lento e exige paciência, e compreender que o livro é um produto, não apenas um sonho, ajuda a manter uma postura mais profissional. Nathália P. Andrade reforça que é fundamental entender quanto custa produzir um livro de qualidade. Ela conta que, embora já tivesse feito cursos e possuísse algum conhecimento, não tinha noção real dos custos envolvidos quando entrou na PenDragon. Por fim, Lúcia Lemos recomenda que novos autores comecem publicando contos e permaneçam independentes no início da carreira. Ela também aconselha a construir presença nas redes sociais, registrar as obras na Biblioteca Nacional e, principalmente: “Se alguém cobrar R$8.000,00 para publicar, pensem dez mil vezes antes de aceitar. É muito provável que se trate apenas de uma gráfica tentando se aproveitar de vocês.”
A agente literária Gabriela Colicigno comentou o encerramento das atividades da PenDragon: “Como agente, sempre acompanho essas questões editoriais, e é sempre ruim quando uma editora fecha as portas, porque significa um espaço a menos para os autores publicarem.”
Segundo ela, o que acontece com frequência em editoras de pequeno porte é a ausência de planejamento estratégico de longo prazo e de um plano de negócios sólido. “Muitas vezes, falta a compreensão de que ter uma editora não é apenas publicar livros, mas gerir uma empresa, com tudo o que isso implica: contratos, pagamentos, fornecedores, distribuidores, enfim, toda a cadeia editorial. O livro é o produto final, mas existe muito trabalho por trás. Não raramente, editoras são fundadas apenas pelo desejo — legítimo — de trabalhar com algo que se ama. Mas, infelizmente, só isso não é suficiente para se sustentar em um mercado como o nosso. O setor muda muito rápido e os atrasos de pagamento por parte de livrarias e distribuidores afetam bastante o caixa das editoras, de qualquer porte, mas especialmente das pequenas. Sem um planejamento adequado, o risco de fracasso é enorme.”
Um autor da PenDragon, que solicitou anonimato, reafirma essa ideia no seu depoimento: “Vejo a PenDragon como um projeto conduzido por pessoas apaixonadas pelo mercado editorial, mas que não conseguiram sustentar o negócio. Na tentativa de evitar a falência, acabaram tomando decisões ruins, algumas até eticamente questionáveis, mas não necessariamente movidas por intenção maliciosa”.
Nesse sentido, Colicigno pontua a instabilidade estrutural do mercado: “Olha, o mercado não está em crise, ele é em crise. O fechamento de grandes redes de livrarias e a saída da Americanas/Submarino impactaram profundamente editoras de todos os tamanhos. Muitas acabaram encerrando atividades ou reduzindo drasticamente o número de publicações. Não é um mercado estável, e a maré pode virar a qualquer momento. Infelizmente, decretar falência ou fechar as portas por diferentes razões acontece de tempos em tempos, sobretudo com editoras pequenas e médias. Para se ter uma ideia, hoje temos mais editoras no Brasil do que livrarias, o que já indica parte dos problemas do setor.”
Questionados sobre a possibilidade de voltar a trabalhar com editoras de pequeno porte, a maioria dos ex-autores da PenDragon respondeu negativamente. Hoje, eles preferem apostar na autopublicação por meio de plataformas como a Amazon KDP, vista como uma alternativa mais segura e transparente do que confiar em editoras independentes.
Em relação aos impactos na saúde mental, muitos compartilham a mesma perspectiva da escritora Ana Cláudia Soriano: “Ao retroceder, consegui avançar. Hoje defendo a autopublicação e a independência do autor. Fiz curso de diagramação, contrato com capistas, presto consultorias e ensino outros escritores a empreenderem seus livros. Na Amazon, consigo acompanhar meu ranking e as vendas em tempo real, algo que não acontecia com a editora. Essa transparência me trouxe paz de espírito. Quero continuar nesse caminho, porque acredito que, com estratégia, é possível transformar retrocessos em avanços.”
Também surgiram críticas ao mercado editorial como um todo, inclusive às grandes editoras brasileiras, acusadas de oferecer poucas oportunidades a escritores nacionais. Assim, os autores se veem em um impasse: precisam de um selo para conquistar credibilidade junto ao público e ao mercado, mas têm poucas chances reais de ascender na carreira.
Questões estruturais também foram apontadas. A falta de orientação sobre o funcionamento do mercado literário contribui para que escritores sejam enganados. Alguns ressaltaram, no entanto, que os próprios autores não podem ser ingênuos: precisam estudar a profissão, pesquisar antes de assinar qualquer contrato, conversar com funcionários de editoras interessadas em publicá-los e até buscar a opinião de leitores que já compraram livros da casa.
Os entrevistados comentaram como é necessário compreender que o sonho de escrever pode ser vivido de forma emocional apenas até a finalização do manuscrito. A partir do momento em que se decide trabalhar profissionalmente — e, sobretudo, ganhar dinheiro com isso —, é preciso ter clareza e frieza para entender que se está lidando com um produto inserido em um mercado que, muitas vezes, não o valoriza.
Vale destacar que alguns ex-autores da extinta PenDragon decidiram fundar suas próprias pequenas editoras. Segundo eles, o objetivo é oferecer uma experiência diferente daquela que viveram e contribuir para tornar o mercado literário um espaço mais justo e acolhedor para o escritor brasileiro.
Um dos exemplos é o da autora Brunna Caneschi, que, junto a dois colegas também oriundos da PenDragon, criou o selo Aldrava Edições para publicar os próprios livros. Ela explica que tomou essa decisão porque os leitores tendem a levar mais a sério obras independentes que contam com um selo editorial por trás.
Outro caso é o da escritora Fátima Aparecida da Silva, fundadora da Editora Morgana. “Fiz cursos, busquei assessorias e fui atrás de todo o conhecimento necessário. Descobri que, embora seja trabalhoso, não é um bicho de sete cabeças. Eu já sabia vender, montar site e cuidar da divulgação. O que precisei aprender foram as questões mais burocráticas, como a comunicação com a Biblioteca Nacional, emissão de ISBN, ficha catalográfica e abertura de CNPJ. Meu maior medo era não atrair autores, mas felizmente aconteceu o contrário. A editora cresceu muito rápido: em apenas três meses já tínhamos conquistado bastante espaço.”
Em seu catálogo, já há nomes conhecidos da antiga PenDragon, como o autor Eduardo Washington. Fátima aconselha que seus colegas não desistam: “É um caminho muito difícil, e muitas pessoas ainda tratam a escrita apenas como um hobby, o que leva à desvalorização da profissão. Mas há escritores que vivem apenas dos livros, como eu, e isso é possível.”


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Conheça a autora
Iasmin Feitosa
Iasmin Feitosa é estudante de Jornalismo e atua na produção de reportagens, entrevistas e textos de não ficção. Interessada em jornalismo literário e narrativas investigativas, tem como foco a escrita de histórias reais que unem apuração, contexto e estilo.
