A LAMENTÁVEL TERCEIRA GESTÃO
“O problema é que, independentemente de quem estivesse na gerência, a editora nunca foi conduzida com base em experiência. Uma coisa é ter paixão por livros, outra é saber administrar um negócio”, declarou Felipe Saraiça.
Ele decidiu deixar a PenDragon três meses antes do fim de 2023, já esgotado pelas mentiras sobre as gráficas e pelo descaso com seus livros. Naquele período, Priscila Gonçalves já não atendia mais às demandas dos autores, e quem estava à frente tentando resolver os problemas eram Déborah Felipe e Nadja Moreno — que mais tarde assumiriam a direção da editora.
Quando comunicou sua saída, Saraiça pediu também que fosse publicado um comunicado oficial aos leitores. Segundo ele, não se tratava de nada grandioso: queria apenas transparência. Entre suas solicitações, estavam também o ressarcimento dos leitores que haviam comprado seu novo livro em pré-venda e o pagamento das vendas antigas de outros títulos, que a editora ainda lhe devia.
Para Saraiça, a nota oficial era fundamental. Durante os anos em que esteve na PenDragon, ele sempre recomendou a editora e trouxe novos autores para o catálogo. Por isso, ao sair, acreditava que devia uma explicação pública. No entanto, Déborah afirmou que não poderia divulgar tal comunicado naquele momento, posição reforçada por Nadja. Ele insistiu: “Eu vou falar com os meus leitores, porque depois eles me cobram. Depois eles não compram mais de mim.”
Segundo Saraiça, a partir desse ultimato, “acabou tudo, acabou a amizade”. O tom das conversas mudou completamente, e até pessoas próximas à diretoria deixaram de segui-lo nas redes sociais. Ele reforça sua classificação dos padrões presentes na empresa: “Ali dentro existe um modus operandi muito forte.”
Ainda enfrentou a sugestão de enviar a nota previamente para a diretoria revisar, o que recusou: “Tenho muito respeito por vocês, mas não vou mandar a nota antes. Isso é meu. É um comunicado meu. Trabalho com marketing, e isso é padrão: você faz uma nota oficial quando algo acontece. Não estava fazendo nada extraordinário.” Hoje, ele reconhece que essa postura, que via como normal, deve ter soado como uma “revolução” dentro da editora, que raramente era transparente com seus autores ou leitores.
A nota de Felipe Saraiça, segundo ele, foi simples e direta: informava apenas sua saída da PenDragon, que seus livros deixavam o catálogo e que sua nova obra não teria mais pré-venda, sem entrar em detalhes.


A publicação repercutiu imediatamente. Muitos leitores, colegas de mercado e autores reagiram, e vários escritores da própria PenDragon começaram a procurá-lo para relatar problemas semelhantes. “A minha saída não era esperada. ‘O Felipe vai sair? Um dos autores mais antigos?’ Eu estava lá há muito tempo, trabalhei dentro da editora. Então, quando saio, as pessoas percebem que algo sério realmente aconteceu”, relata.
Esses contatos revelaram um padrão recorrente: autores de diferentes épocas — antigos, recentes e intermediários — compartilhavam a mesma justificativa recebida da editora: a gráfica estaria sempre atrasando os livros. “Mas aí começaram os questionamentos: vocês estão mandando para a mesma gráfica desde 2017, 2019, 2023? Sempre a mesma desculpa?”, comenta Saraiça.
Ele reconhece que sua decisão inspirou outros a romper o silêncio. “O pessoal tinha medo. Mas, assim que eu saí, perderam um pouco o receio. Viram como era possível sair.”
O impacto de sua saída pode ser medido pelos depoimentos de outros escritores entrevistados, que, mesmo sem serem questionados diretamente sobre o caso, citaram sua atitude como um marco:
Felipe resume o efeito que provocou: “A Priscila tinha o dom de manter tudo escondido. Mas, na minha saída, eu não deixei nada debaixo do pano.” Pouco tempo depois, em janeiro de 2024, ocorreu a mudança de diretoria: Déborah, Nadja e Carolina assumiram a PenDragon.
Antes, Déborah atuava como assistente editorial e Nadja fazia revisão de livros. Já na nova gestão, Nadja passou a cuidar da comunicação com os autores (função administrativa), Déborah ficou responsável pela parte editorial (cronogramas) e Carolina cuidava de funções financeiras — embora, segundo os escritores, não fosse claro qual era exatamente seu papel.


O trio assumiu a editora em um momento delicado. A saída de Felipe Saraiça havia aberto uma fissura na base da PenDragon, revelando a dimensão da crise que estava prestes a explodir. Logo, diversos escritores começaram a pedir desligamento, enquanto outros ameaçavam processar Déborah, Carolina e Nadja caso não recebessem o que lhes era devido: pagamentos atrasados, livros sem previsão de entrega e um cronograma realista para as obras que já estavam em produção.
Para agravar a situação, há relatos de que o trio continuou aceitando novos escritores. Ex-funcionários acreditam que essa decisão foi uma tentativa de usar o dinheiro dos recém-chegados para cobrir dívidas com os antigos autores. Segundo essas teorias, foi esse tipo de “solução” que levou ao anúncio — feito apenas internamente — e somente oito meses após terem assumido, em setembro de 2024, de que a editora PenDragon havia falido.
Quando pressionadas pelos escritores, Déborah, Carolina e Nadja alegaram que a editora não estava nas condições prometidas quando a adquiriram. Um autor descreve a versão delas da história como semelhante a de um “golpe de cavalo de Troia”.
Mais surpreendente ainda foi a segunda justificativa apresentada pelo trio: diziam não ser, de fato, as diretoras, mas apenas “rostos” administrativos, enquanto Priscila Gonçalves continuava à frente de tudo. Nesse discurso, elas se apresentavam como pessoas que foram enganadas.
O resultado disso foi que, quando os autores tentaram rescindir contratos, ficaram presos em um impasse. A segunda e a terceira gestão jogavam a responsabilidade uma sobre a outra, e ninguém assumia formalmente a situação. “O filho é seu, a culpa é sua”, resume Saraiça sobre a disputa.
A escritora Ana Cláudia Soriano, diagnosticada à época com depressão em nível grave, relata que, sem forças para enfrentar conflitos, buscou dialogar com a terceira gestão de forma humilde, pedindo a devolução dos direitos de seus livros. “A Déborah se emocionou durante a conversa e disse que minhas palavras confortavam o coração dela, porque a situação não estava fácil para elas também”, recorda.
Nesse período, o trio encerrou o grupo de Telegram dos escritores, impedindo que as denúncias e demandas fossem feitas em público. A comunicação passou a ocorrer apenas de forma privada com a diretoria.
Bernardo Stamato relatou como esse impasse se manifestava na prática: “Começou um verdadeiro jogo de empurra-empurra entre gestões. Tenho áudios em que a Priscila dizia não saber de nada porque já tinha passado a editora adiante. Só que, na prática, ela continuava aparecendo e se comunicando. Em certos momentos, dizia frases vagas, como: ‘As meninas estão fazendo das tripas coração para atender vocês’. Isso, para mim, não significa nada. O que eu queria saber era em que estágio estava o meu livro, o que faltava, por que havia atraso. Mas nunca havia respostas objetivas.”
“Quando a terceira gestão assumiu, o discurso mudou novamente: ‘Não podemos cancelar contratos porque a empresa ainda pertence à Priscila e ao Ricardo’. De fato, o CNPJ ainda estava no nome dele, e basta pesquisar para confirmar. Então, de um lado, a Priscila dizia que a responsabilidade era da nova gestão. Do outro, o trio afirmava que não podia agir porque a empresa continuava legalmente no nome dos antigos donos. Ficamos nesse limbo: cada gestão culpava a anterior, e os autores não sabiam em quem acreditar. Cheguei até a desconfiar que havia um acordo entre eles para sustentar esse discurso, porque parecia combinado”, Stamato desabafa.
“Pelo que entendi, inicialmente o contrato feito com o trio foi apenas de cessão de uso da marca, mas não da empresa em si. Então, juridicamente, a editora ainda era da Priscila e do Ricardo, e isso poderia explicar parte da confusão. Esse é o retrato do que aconteceu: muita desinformação, promessas vagas e uma gestão que nunca se mostrou transparente com os autores.”
Após apuração, foi confirmado que, até hoje, o CNPJ da PenDragon continua registrado em nome de Ricardo Gonçalves, marido de Priscila.
Sem condições de manter a editora ativa por mais tempo, Nadja Moreno, Déborah Felipe e Carolina Felipe anunciaram ao público, em janeiro de 2025, o encerramento das atividades da PenDragon.
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