A BREVE PRIMEIRA GESTÃO
“O mercado está cheio de editoras fajutas que pegam o dinheiro do autor e entregam 10% do prometido”, comentou Josué Matos, fundador da PenDragon, em entrevista ao blog Corujando nos Livros, no dia 23 de janeiro de 2016. Na época, a editora, com sede no estado de Rio de Janeiro, tinha pouco mais de três meses de existência, mas Matos já deixava claro como queria posicioná-la: “queremos ser referência no mercado editorial como uma editora séria e honesta que realmente trata o autor com todo o respeito e atenção que ele merece”.
Sendo ele próprio escritor, Matos dizia compreender as dificuldades de publicar um livro e aconselhava novos autores a agir com cautela, alertando sobre as “armadilhas” que poderiam gerar frustração com o produto final. “Se for esse o caminho que você quer seguir, você tem que se preocupar e muito com a qualidade. Os leitores merecem um serviço feito com muita dedicação e cuidado.”
Com essas ideias em mente, iniciou os trabalhos publicando não apenas dois de seus próprios livros sob o selo da PenDragon, mas também obras de outros autores. Entre eles, Felipe Saraiça, que descreveu Matos como um editor que buscava revolucionar a indústria. “Naquela época, tudo sempre foi muito tranquilo”, relembra. “O Josué estava saindo de outra editora também. Isso é meio que um caminho tradicional, né? O autor se decepciona com uma editora, abre a própria….”
Ex-autores da casa relatam que escolheram a PenDragon porque ela se apresentava como a editora ideal para quem escrevia fantasia. Além disso, oferecia duas modalidades de publicação: a tradicional — sem custos para o escritor — e a de coparticipação — em que o autor arcava com a produção. Muitos acreditavam que, ao iniciar pela coparticipação, poderiam futuramente alcançar a publicação tradicional, caso obtivessem bons números de vendas.
A presença constante da editora em eventos literários também era um fator relevante. O escritor Bernardo Stamato comenta: “Isso, para mim, era — e ainda é — muito importante.” No início, os escritores da casa não se sentiam prejudicados; pelo contrário. A editora ocupava um espaço de destaque no mercado independente, algo raro na época. Ela oferecia oportunidades para autores que dificilmente seriam aceitos pelas grandes editoras, cujos catálogos eram majoritariamente preenchidos por títulos estrangeiros.
A escritora Marília G. Barbosa lembra o período inicial da PenDragon como uma fase muito positiva, em que “parecia que tudo iria dar certo”. Segundo ela, o processo de trabalho era tranquilo e os resultados, satisfatórios. “Acredito que isso se deve muito à gestão do Josué. Se ele tivesse continuado à frente, talvez a editora não tivesse falido da forma como aconteceu depois”, afirma. “Na gestão dele, a editora estava em crescimento.”
Foi nesse contexto que Priscila Gonçalves conheceu a PenDragon. Em entrevista ao canal do YouTube Escrita Épica, ela contou que, formada em Direito, advogava em um escritório em meados de 2016, mas não se sentia realizada profissionalmente. Nesse período, uma das autoras da editora, que acompanhava o conteúdo literário que Priscila gostava de compartilhar na internet, entrou em contato e sugeriu uma parceria.
No mesmo ano, Priscila foi à Bienal do Livro de São Paulo, onde conheceu Josué Matos e o estande da PenDragon. Lá, os autores descobriram que ela também escrevia e a incentivaram a seguir carreira — ou ao menos publicar seus textos no Wattpad (plataforma de publicação online e gratuita). Pouco tempo depois, após publicar na plataforma, Matos a convidou para lançar um livro pela editora. Ela aceitou, mas destaca que foi nesse momento que sua trajetória como editora também começou.
Tendo se desligado do escritório de advocacia, percebeu algumas demandas internas da PenDragon e se ofereceu como voluntária para ajudar. Assim, trabalhou quase um ano, passando por praticamente todos os setores da empresa.
Priscila recorda que Josué frequentemente pedia que ela realizasse tarefas que inicialmente não sabia executar. A resposta dele era sempre ensinar e dar autonomia para que decidisse sozinha. “O que você decidir, é o que fica”, dizia. Como exemplo, ela lembra de quando recebeu uma lista de blogueiros literários e teve de escolher quem receberia exemplares e em qual quantidade. A dinâmica a deixava insegura, já que o investimento financeiro partia de Josué.
Em 2017, a PenDragon já havia publicado cerca de oitenta escritores, mas a necessidade de uma mudança de gestão logo se impôs. Na Bienal do Livro daquele ano, Gonçalves relembra que Matos a chamou, junto a outra autora, para compartilhar uma situação delicada: enfrentava um problema grave de saúde na família e precisaria se mudar para Portugal. Segundo ela, Josué “queria passar a editora para alguém que perpetuasse o que ela era”.
Na época da entrevista ao canal Escrita Épica (dezembro de 2022), Priscila comentou que finalmente compreendia o que Josué queria dizer: a editora não era apenas uma empresa, mas o sonho de muitas pessoas.


A escritora Marília G. Barbosa acrescenta que, além de Priscila e da outra autora, Josué também chegou a procurá-la: “Ele me perguntou se eu teria interesse em assumir a PenDragon. Mas, como eu estava cursando a faculdade e tentando me dedicar à escrita, sabia que não teria condições de administrar uma empresa. Sempre achei essa responsabilidade muito grande.”
Priscila afirma que hesitou em assumir a responsabilidade, pois, embora tivesse adquirido vasta experiência prática durante o tempo em que se voluntariava, não possuía a formação teórica na área. Após conversar com o marido, Ricardo — contador de profissão —, decidiram juntos aceitar o desafio. “A gente aceitou mudar completamente nossa vida”, lembra.
Naquele período, a PenDragon se consolidava como um espaço em que os escritores se sentiam valorizados e parte de uma comunidade. Priscila afirma que, mesmo com a mudança de gestão, os valores que a editora defendia permaneceram os mesmos.
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