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A MEMORÁVEL SEGUNDA GESTÃO

“Meu primeiro contato com a PenDragon foi por e-mail com a chamada “editora-chefe”, Priscila. Coloco entre aspas porque ela não tinha nenhuma formação na área editorial, nem experiência suficiente para assumir a responsabilidade que assumiu”, comenta Thiago Gonçalves, ex-autor da editora. Assim como outros escritores que conviveram com a segunda gestão da PenDragon, ele ressalta que Priscila Gonçalves era a verdadeira diretora da empresa, enquanto seu marido, Ricardo, atuava em segundo plano.


O casal esteve à frente da editora durante a maior parte de sua existência e publicou diversos títulos, mantendo o posicionamento da empresa como uma “casa da fantasia”, voltada a acolher autores brasileiros. Esse perfil atraía escritores que, por meio da PenDragon, conseguiam realizar o sonho de se tornarem publicados. A escritora Nathália P. Andrade, por exemplo, relatou que, sem condições de arcar com os custos da publicação coparticipativa oferecida pela empresa, recebeu de Priscila um contrato especial que viabilizou seu lançamento. Ela descreveu sua experiência como extremamente positiva e “bem mais acolhedora do que imaginava”.


Nos primeiros anos da gestão de Priscila e Ricardo Gonçalves, destacava-se a forma como Priscila lidava com os autores: sempre paciente e solícita. Andrade relembra: “Ela acreditava que era possível existir uma editora que acolhesse autores nacionais talentosos, mesmo que não fossem famosos ou tivessem grandes números de seguidores. O objetivo era que todos se conhecessem e trocassem experiências. E isso realmente aconteceu (…) A ideia da Priscila era que os autores, unidos, não se sentissem tão solitários, já que o trabalho de escrita costuma ser muito isolado.”


Muitos escritores ressaltam que, no início, a editora era recomendada por quem já fazia parte dela. O ambiente, descrito como majoritariamente amistoso, transmitia acolhimento e encorajava novos autores a se unirem à casa.  Thiago Gonçalves lembra que a diretoria prometia inserir o autor no mercado, divulgar os livros nas redes sociais e no site da editora, oferecer planos diferentes de publicação, brindes, um contrato especial para novos escritores e uma porcentagem de royalties supostamente maior do que a praticada por outras editoras. “Era, de certa forma, um discurso muito cheio de promessas, quase uma enrolação. Mas, como eu não conhecia o funcionamento desse mercado, acabei me deixando convencer”, afirma.


O escritor Bernardo Stamato, porém, não compartilhava essa percepção positiva e contextualiza sua experiência de outra forma: “desde o começo, dava para notar que havia certas falhas. Era como um carro que anda, mas você percebe que precisa de manutenção. Ele chacoalha, dá uns trancos, mas chega ao destino. Então, no início, não tive grandes problemas, de verdade. Mas isso durou pouco.” Ele acrescenta: “Na primeira gestão, com o Josué, já existiam ideias inviáveis e promessas insustentáveis. Muitos autores embarcaram nessas expectativas e, quando Josué saiu, a bomba estourou no colo da Priscila.”


Um dos episódios mais marcantes da gestão dos Gonçalves aconteceu durante a Bienal do Livro de 2019, no Rio de Janeiro; diversos relatos descrevem a mesma cena: os autores da PenDragon não tinham livros para vender no maior evento literário do país, porque os exemplares chegaram gravemente danificados.


Um autor relatou que a gráfica responsável entregou lotes com defeitos evidentes; outro acrescentou: “Era capa descolando, páginas soltas… um desastre.” O material, de qualidade tão baixa, inviabilizou as vendas e prejudicou a participação da editora no evento. Stamato lembra sua frustração: “a parceria começou a desandar quando os livros com defeito chegaram, e a editora não resolveu o problema. Como autor, você espera que a editora cuide dessas questões. Perdemos uma parte considerável do lucro ao publicar com uma editora justamente porque esperamos que ela resolva essas dores de cabeça e ofereça suporte.”


Apesar da decepção, a maioria dos escritores reconheceu, na época, que a falha estava na gráfica, e não na editora. O que se tornaria mais significativo, porém, foi a forma como a gestão da PenDragon utilizaria esse episódio posteriormente. Como comentou um autor: “problemas pequenos sempre existiram — como o atraso de uma capa, por exemplo —, o que é algo comum. Mas nada se comparava ao que viria depois.”

A segunda gestão da PenDragon aprendeu, após o episódio da Bienal de 2019, que culpar a gráfica era a forma mais eficaz de se isentar de responsabilidades. Os escritores, ao ouvirem essa justificativa, deixavam de cobrar diretamente a editora — e, assim, nasceu a desculpa perfeita. A partir daí, o trabalho da PenDragon entrou em declínio, e a narrativa de que os problemas vinham sempre das gráficas passou a se repetir.


“A gráfica era o bode expiatório favorito da PenDragon”, afirma Thiago Gonçalves, escritor que teve sua carreira gravemente prejudicada após sucessivos atrasos e a entrega de livros em condições precárias, sempre explicados com a mesma justificativa.


O caso dele, no entanto, não foi isolado — pelo contrário, tornou-se padrão entre os relatos colhidos. As declarações dos entrevistados se repetem:

As gráficas eram um problema constante.
Nathália P. Andrade
Autora de "Tocada Pelo Sol"
Disseram que não iam mais publicar meu livro, alegando não encontrar gráfica com preço acessível. Mas, quando eu mesmo orçava, conseguia valores razoáveis.
Lúcia Lemos
autora da Saga "Aika"
Sobre gráficas, nunca tive uma resposta objetiva (...) Com o tempo percebi que isso era um padrão dentro da editora. O contrato era fechado, o livro voltava revisado rapidamente, a capa também vinha sem demora, mas na hora da gráfica tudo travava.
Ana Cláudia Soriano
autora de "Quando as Folhas Caem"
A gráfica era a desculpa mais frequente. Mas eles nunca informaram o nome da gráfica, e qualquer tentativa de obter essa informação era ignorada.
Eduardo Krauze
autor de "Mundo Desolado"

Lucas de Lucca, proprietário da Flyve, uma editora de pequeno porte, foi ouvido para oferecer uma comparação sobre a relação que esse tipo de empresa pode estabelecer com as gráficas. Segundo ele, é normal que ocorram problemas ocasionais, já que o volume de produção e os gastos mensais com esse tipo de serviço são elevados. No entanto, em sua experiência, tais situações costumam ser facilmente negociadas e resolvidas.

 

O depoimento de De Lucca reforça os questionamentos levantados por muitos ex-autores da PenDragon: se uma gráfica entregava um trabalho de má qualidade e os problemas persistiam sem solução, por que a editora continuava a contratá-la? Será que, em uma cidade como São Paulo, havia apenas uma gráfica disponível para atender à PenDragon? E, mesmo quando a editora dizia ter mudado de prestadora, por que os problemas permaneciam os mesmos? Estariam, de fato, todas as gráficas sendo tão incompetentes ou agindo de má-fé como a gestão dos Gonçalves fazia parecer?

 

Quando questionada, Priscila costumava justificar os atrasos alegando que as gráficas não priorizavam editoras de pequeno porte, dando preferência a clientes com demandas maiores. Intrigada, a escritora Brunna Caneschi decidiu testar a explicação por conta própria. Junto a outros colegas, investigou o caso e descobriu que a PenDragon trabalhava com diversas gráficas de São Paulo — uma delas, inclusive, era a mesma que Brunna planejava contratar para uma tiragem independente e reduzida.

 

Ela fez um pedido de 20 exemplares e todo o processo ocorreu de forma rápida e eficiente, do orçamento à entrega. A experiência deixou claro que o problema não estava nas gráficas. “No meu trabalho também lido com projetos gráficos e tenho contato com gráficas do Rio de Janeiro. Perguntei a uma delas como era o processo, e a resposta foi que, uma vez feito o pagamento, a impressão seguia normalmente”, relatou. “No máximo, poderia haver um atraso de uma semana por questões de estoque, mas nunca algo tão prolongado quanto alegava a editora. As desculpas não batiam com a realidade do mercado gráfico.”

 

Em entrevista, Robson Alves, gerente de negócios da Bok2 — uma das empresas citadas pela gestão da PenDragon como responsável por atrasos e erros gráficos — negou as acusações. Ele destacou que a Bok2 não é, de fato, uma gráfica, mas sim um hub de serviços literários (plataforma que integra diferentes etapas do processo editorial): “conectamos editoras e autores independentes a gráficas parceiras para impressão sob demanda. No caso da PenDragon, ela utilizava nossos serviços para imprimir os livros conforme a necessidade, sem manter estoque ou investir além do essencial para disponibilizar os títulos no mercado. A editora esteve conosco por cerca de dois anos e meio. Sempre que precisava de exemplares, cadastrava os livros na plataforma, inseria os dados necessários e fazia o pedido de impressão. Após o pagamento, encaminhávamos o pedido a um de nossos fornecedores gráficos.”

 

Segundo Robson, ao analisar o histórico da editora, percebeu que muitos pedidos sequer eram feitos pela própria PenDragon, mas diretamente pelos leitores em marketplaces como Amazon, Americanas e Shoptime. O gerente explicou que os valores das vendas são repassados à editora, que, por sua vez, deve repassar os direitos autorais aos autores. Por isso, discorda da versão de que os atrasos se deviam a falhas de alguma gráfica. Ele acrescenta que todo o processo é transparente, com acesso da editora a relatórios, rastreamentos e confirmações de venda.

 

Sobre algumas acusações de livros mal-diagramados, Robson foi enfático: “É importante esclarecer que não fazemos diagramação. Os arquivos precisam estar finalizados antes do envio para impressão.” O processo funciona assim:

Infográfico “Como funciona o processo de impressão na Bok2”/ Imagem: Iasmin Feitosa através do Canva

“Ou seja, se houve erro de diagramação, é porque a própria editora aprovou os arquivos com problemas. Todo esse processo é documentado no sistema, com registro de horários, IPs e termos de aceite”, Robson explica.

 

Ele complementa afirmando que, se a Bok2 atrasasse seus serviços, sofreria penalidades dos próprios marketplaces parceiros, o que nunca ocorreu. Além disso, relatou que muitos títulos da PenDragon, removidos do sistema após o fechamento da editora, foram posteriormente reinseridos pelos próprios autores em publicações independentes, o que, segundo ele, demonstra que os escritores não estavam sendo prejudicados pela empresa em si.

 

Wellington Rehder, diretor da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (ABIGRAF) e membro do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Gráfica, da Comunicação Gráfica e dos Serviços Gráficos de Blumenau e Região (SINDGRAF), afirmou, em entrevista, nunca ter presenciado situações como as descritas pela gestão da PenDragon, em que pedidos maiores teriam prioridade sobre os menores: “Quando uma editora apresenta uma proposta, há um prazo acordado. Esse prazo é um contrato bilateral. Se não é possível cumprir em 10 dias, por exemplo, a gráfica precisa ser clara e oferecer 15. Mas, a partir do momento em que o prazo foi assinado, ele deve ser cumprido — independentemente do tamanho do pedido. Atrasos podem acontecer, sim, mas por motivos técnicos: quebra de máquina, falha de equipamento, ausência de funcionários. Isso pode gerar um ou dois dias de atraso, mas nunca porque um pedido grande ‘passou na frente’ de um menor. Isso não é ético.”

 

Rehder também comentou uma prática frequentemente apontada pelos escritores: a ausência da informação sobre qual gráfica havia produzido determinado livro no bloco de dados obrigatórios. Segundo ele, de fato não existe lei que obrigue a inclusão dessa informação, mas trata-se de uma boa prática de mercado. Em sua própria gráfica, por exemplo, essa identificação só deixa de constar quando o cliente pede expressamente. Normalmente, quem faz esse tipo de solicitação são pequenas editoras, receosas de que o autor descubra o preço real do livro e passe a negociar diretamente com a gráfica. 

 

Estabelecido isso, Felipe Saraiça trouxe mais um dado que ajuda a compreender melhor o cenário da PenDragon após a Bienal de 2019: Priscila e Ricardo manifestaram o desejo de deixar a editora e chegaram a oferecer a empresa a ele. Segundo Saraiça, o discurso foi semelhante ao do fundador, Josué Matos, quando fez essa oferta a Priscila — o novo responsável não precisaria comprar a editora, apenas assumir o nome e a gestão. “Eles me ligaram dizendo: ‘Eu não confio em ninguém além de você, porque você tem muita paixão’. Num primeiro momento pensei: ‘Que legal, confiaram em mim’. Mas, logo em seguida, começaram a enviar os detalhes de como seria assumir a editora, e percebi que não fazia sentido. Eu realmente não pagaria nenhum centavo pela PenDragon, mas herdaria todos os problemas. Havia dívidas com gráficas, autores que tinham pago pela impressão e eu é que teria que arcar. Existiam direitos autorais pendentes. Quando analisei tudo, concluí: ‘É mais fácil eu abrir uma editora do zero do que assumir uma que já está cheia de problemas’.” Assim, Saraiça rejeitou a oferta.

 

Segundo ele, toda essa negociação aconteceu de forma interna. Os autores não foram informados para que não houvesse alarde. 

Felipe Saraiça no estande da PenDragon durante a Bienal de 2016, quando lançou seu primeiro livro pela editora/ Foto: Instagram @ felipesaraica

Após 2019, em pouco mais de três anos, a situação da editora PenDragon se deteriorou. “Foi um caos, essa palavra resume todo o processo. A PenDragon deixou a desejar em todos os pontos, em todas as etapas e aspectos, absolutamente em tudo”, enfatiza Thiago Gonçalves. 


A escritora Ana Cláudia Soriano relatou um episódio envolvendo Priscila: “Ela me pediu algo que considerei muito inadequado — que eu compartilhasse no grupo a diagramação do meu livro como uma suposta ‘notícia boa’ da editora, para tentar amenizar o clima de críticas. Também pediu que eu não comentasse com ninguém que a iniciativa havia partido dela. Eu não aceitei (…) depois comecei a perceber que, em meio ao tumulto, sempre surgia alguém com uma mensagem positiva — como falar sobre a Bienal, por exemplo. Foi então que entendi que era a própria Priscila tentando manipular o grupo. Isso aumentou minha decepção.”


A escritora Marília G. Barbosa também comenta a postura de Priscila como autora: “Já dava para perceber certos atritos e uma falta de sintonia entre algumas pessoas. Eu senti isso porque nunca consegui enxergar a Priscila realmente como editora. Para mim, ela sempre foi autora — e, mesmo ocupando uma posição de liderança, continuava se comportando como tal. Explico: o Josué, por exemplo, em 2017, não ficava apenas repetindo ‘compre meu livro, compre meu livro’. Ele dividia a atenção com todos os autores. Já a Priscila, embora também demonstrasse algum interesse pelos outros, passava a impressão de estar mais preocupada em promover os próprios livros. Essa foi a impressão que tive.”


A falta de transparência e a desonestidade com os escritores deixaram de causar apenas prejuízos financeiros e passaram a afetar também a saúde mental de muitos deles. Os depoimentos são contundentes:

Emocionalmente, foi desgastante. Tive insônia, frustração, vivi todas as fases do luto.
Bernardo Stamato
autor de "A Era do Abismo"
Me afetou perder a estabilidade que tinha para meus livros e, claro, conviver com outros autores totalmente desesperados me desestabilizou.
Vitória Amancio
Autora de "Olhos de Jade"
A decepção foi tão grande que hoje não consigo manter o ritmo de escrita.
Anahi Gabriela
autora de "O Arco-Íris e o Preto"
Sentia ansiedade esperando os livros chegarem, com medo de virem com defeito. (...) Era angustiante, porque os eventos se aproximavam, novos leitores me procuravam e eu não tinha exemplares para oferecer.
Lúcia Lemos
autora da Saga "Aika"
Isso me deixou bastante desmotivada e triste, pois a editora não atrasava apenas o meu livro, mas também os de outros colegas. Para quem publica ou compra, a incerteza de não receber o livro gera uma ansiedade nada saudável (...) Foi muito difícil. A sensação era de estar no meio de uma tempestade sem ter como se proteger.
Brunna Caneschi
autora de "Dispositivo Fênix"

Vale destacar que nem mesmo escritores com grandes volumes de vendas foram poupados dos prejuízos causados pela PenDragon. Um exemplo é o caso de Ana Jeckel, autora da saga Nadia Keane e atriz da Disney. Com milhares de seguidores nas redes sociais e considerada por colegas como a “queridinha da PenDragon”, ela também enfrentou sérios problemas com a editora.

 

Segundo Ana, os atrasos de pagamento foram recorrentes e só se tornaram evidentes quando ela fez um levantamento detalhado: “Eles não cumpriram os prazos de pagamento, mas só percebi isso quando coloquei tudo na ponta do lápis. Eu estava sempre devendo dinheiro para eles e nunca ganhei nada com a publicação, enquanto a editora lucrou muito em cima de mim (…) eu nunca vi a cor desse dinheiro.”

 

Além das falhas financeiras, a autora relata ter sido constantemente usada como ferramenta de marketing sem receber qualquer contrapartida: “Eu era obrigada a divulgar o produto, mas nunca recebi nada em troca. Sentia que me esforçava muito apenas para manter meu livro publicado, e ainda parecia pouco. Eles pediam vídeos para impulsionar as vendas, mas a contrapartida era inexistente (…) Basicamente, eu era o rosto do marketing deles.”

 

Um episódio que marcou essa relação foi a promessa de um evento de lançamento exclusivo em São Paulo. Ana conta que, de última hora, a editora transformou a ocasião em um “encontrinho” coletivo, reunindo outros quatro autores. “O dia era para ser dedicado ao meu lançamento, mas acabaram colocando outros quatro autores com seus livros. No fim, minha fila tinha cerca de 30 leitores, todos que foram para me ver, enquanto os outros quase não tinham público. Ficou claro que estavam usando os meus leitores para atrair atenção para a editora como um todo. Além disso, tive que ouvir comentários maldosos de outros autores, dizendo coisas como: ‘Ah, virou o evento da Ana Jeckel’. Sendo que, na verdade, o evento era inicialmente só meu — eu mesma havia feito toda a divulgação para os leitores. Enfim, foi uma experiência que me ensinou a não me deixar ser usada novamente.”

Ana Jeckel/ Foto: Marcia Molina

Para o leitor que acompanha de fora, pode parecer difícil entender por que esses autores permaneceram na editora mesmo diante de tantos problemas. A resposta, segundo os entrevistados, está no papel que Priscila Gonçalves exercia no meio literário: dentro e fora das redes sociais, era chamada de “Mãe dos Dragões”, sendo vista como a principal referência e figura de confiança para os escritores da PenDragon.


Era a ela que recorriam para enviar originais, esclarecer dúvidas, cobrar pendências e até desabafar. Segundo diversos depoimentos, esse vínculo pessoal acabou criando, com o tempo, uma dinâmica de caráter familiar dentro da editora. Havia até um grupo no Telegram com todos os escritores, o que reforçava essa ideia de comunidade íntima.


O escritor Bernardo Stamato, no entanto, se mostrou crítico em relação a essa prática: “Eu já havia trabalhado em lugares que usavam esse discurso de ‘somos uma família’, e sabia que isso era, muitas vezes, balela. Em uma empresa, esse tipo de laço não se sustenta. Lamento por quem acreditou e sofreu uma decepção severa. Porque, veja, uma família não faria o que eles fizeram. Mas a gestão da editora fez. E isso, pra mim, é um sinal claro de amadorismo.”


É inegável que Priscila engajava pessoalmente com os autores. Relatos afirmam que o casal Gonçalves chegou a frequentar a casa de membros da equipe. A escritora Lúcia Lemos destacou essa proximidade ao lembrar da assistência que recebeu em momentos delicados: portadora de fibromialgia, ela contou que recebia apoio do casal em eventos literários, o que fortalecia a sensação de intimidade entre gestão e autores.

Priscila Gonçalves no TikTok da editora/ Link: https://vm.tiktok.com/ZMAfqDrb8/ Imagem: TikTok @ editorapendragon

Até situações íntimas dos autores acabavam chegando a Priscila. Foi o caso da escritora Brunna Caneschi, que começou a namorar outro autor da PenDragon, Eduardo Krauze. Quando oficializaram o relacionamento, decidiram contar primeiro à diretora, prevendo que poderiam enfrentar rejeição por parte de colegas que desaprovavam a relação. 


O episódio chama atenção porque a editora possuía um setor de Recursos Humanos, que não foi acionado para lidar com a situação e proteger os envolvidos. O RH era coordenado pela psicóloga Nathália P. Andrade, que, curiosamente, também era autora publicada pela própria casa editorial. Segundo Saraiça, que já atuou nas redes sociais da editora e depois como assistente editorial, essa prática era normal: “Isso é algo bem comum em editoras menores: elas costumam colocar os próprios autores em alguns cargos — às vezes em troca da publicação, às vezes com algum pagamento envolvido. Então, era algo recorrente.” A escritora Marília G. Barbosa complementa que, em sua percepção, “essa dinâmica funcionava mais como uma forma de incentivar os autores a trabalharem sem remuneração direta”.


Questionada sobre sua atuação dupla, Nathália P. Andrade afirmou: “Como psicóloga, aprendi a manter neutralidade e ética no atendimento. Eu não misturava minhas frustrações pessoais com o trabalho.” Ela acrescentou que não buscou o cargo, mas foi procurada pelo setor de agenciamento da editora. Suas funções, segundo explicou, eram simples: responder e-mails, acolher reclamações, elaborar respostas e encaminhar os casos para os setores competentes. 


A especialista em Recursos Humanos Priscilla Couto Santos foi consultada para explicar melhor o papel do RH dentro de uma instituição. Eleita Top Voice pelo LinkedIn, Santos é autoridade em Carreira, Liderança e Gestão de Pessoas, com mais de 15 anos de experiência apoiando empresas no desenvolvimento de lideranças estratégicas. Segundo ela, o RH deve atuar como aliado do negócio: “Somos nós que conectamos pessoas aos indicadores que a empresa deseja alcançar. Já passou o tempo em que nossa função era apenas contratar e demitir. Hoje, o RH pode reduzir custos, ampliar lucros, fortalecer a marca empregadora e influenciar resultados estratégicos. Mas, para isso, precisa estar presente nas mesas de decisão — não apenas ser chamado quando surgem problemas.”


Questionada sobre a prática de simular relações familiares em ambientes profissionais, Santos foi categórica: “Famílias são sempre saudáveis? Sabemos que não. Tratar a empresa como família pode até parecer acolhedor, mas é uma bomba-relógio. Na família não há demissão; na empresa, sim. Além disso, quando a lógica é de ‘pai’ ou ‘chefe’ que não pode ser contrariado, o feedback se torna inviável. A relação de trabalho é um contrato profissional: o colaborador entrega seu tempo e experiência em troca de remuneração. Quando uma das partes não está satisfeita, o desligamento é natural. Confundir isso abre espaço para abusos, sobrecarga e falta de profissionalismo.”


Essas observações dialogam diretamente com os relatos de Felipe Saraiça. Para ele, o discurso de acolhimento foi usado como ferramenta de manipulação: “O que aconteceu foi um aproveitamento desse acolhimento. Eles perderam a mão e acabaram explorando justamente os mais próximos para fazer o que fizeram. Como mantinham o discurso de ‘somos uma família’, era difícil reclamar. Era como se dissessem: ‘Se você está junto no bom, tem que estar junto no ruim’. Usaram esse discurso até não dar mais. Era desculpa atrás de desculpa, e muitos ainda relevavam (…) Os primeiros prejudicados foram justamente os mais próximos. Era como se a gestão testasse os limites com quem confiava neles. Depois, atingiram todo mundo. Eu sempre digo: eles tinham um modus operandi de quadrilha. Pode parecer pesado, mas era sistemático.”

Foi apenas em novembro de 2023 que a gestão dos Gonçalves deixou oficialmente a PenDragon. Alegando exaustão mental, Priscila convocou uma reunião pelo Google Meet com os escritores e anunciou que a direção passaria para duas funcionárias antigas da casa, Déborah Felipe e Nadja Moreno. Para completar o trio, também entrou a irmã de Déborah, Carolina Felipe.

 

Especula-se que o mesmo acordo antes oferecido a Felipe Saraiça tenha sido repetido com elas: “herdar” a editora sem custo algum, mas assumindo todos os seus problemas e dívidas. Diferentemente de Saraiça, as três aceitaram, tornando-se as responsáveis pela PenDragon no momento em que a empresa declarou falência.

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